Fomos privados de circular e ver o mundo com os próprios olhos. Ver através dos olhos alheios foi uma forma de deslocar-se no período de confinamento que vivemos. Lugares que gostaria de estar, cores dramáticas nos finais de tarde com céu limpo, águas claras e verdes vivos que não vi, sons e cheiros que não senti me deram saudades da minha vida. Momentos que gostaria de ter vivido enquanto estava reclusa em casa organizando uma rotina estranha.
Adaptando uma forma de viver isolada com minha família no ninho seguro por conta de uma incerteza mórbida. Por um tempo trocamos o contato real com a paisagem e as pessoas pelo virtual, passamos ver tudo diminuído pelo tamanho de uma tela que cabe na palma da mão.
Entre tantas notícias ruins e uma sensação estranha de não saber para onde correr, veio a vontade de sair, de trocar de lugar, de voltar a ter liberdade e beber o horizonte como um remédio para essa pandemia. Passei a roubar em uma rede social fotografias de paisagens captadas por pessoas que conheço e postar com #paisagemroubada. Peguei para mim visões que gostaria de ter visto. São imagens que simbolizam uma forma de deslocamento tão irreal quanto a as relações virtuais, mas que me confortaram por certo tempo. Não sabemos o quanto durou ou vai durar.

Não acabou.

#paisagemroubada, Instagram, 2020.

mini bio

Juliana Castro

@julianacastro.ja8

 

Arquiteta e Urbanista pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. É sócia-fundadora do escritório JA8 Arquitetura e Paisagem, que desenvolve projetos de arquitetura, paisagismo e urbanismo com foco na humanização de lugares e inclusão da natureza nas cidades, somando milhões de metros quadrados projetados e milhares de árvores plantadas em espaços públicos e privados. Realizou trabalhos como o Parque Linear do Córrego Grande, o Parque e Marina Beira-mar e o Boulevard 1432, no Aeroporto Internacional de Florianópolis - projetos reconhecidos em cinco edições do Prêmio Asbea Nacional de arquitetura. Participou da Bienal Internacional de Arquitetura em 2011 com projeto para Praça Celso Ramos em Florianópolis e da Bienal Brasileira de Design Floripa 2015, com o Grupo Coletivo Criativo, apresentando o “Balanço Ninho Ovo”. É autora do livro “Alma em Movimento” (Cais Editora, 2020).

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